A resposta óbvia é porque gosto, dá-me um gozo tremendo. Óbvia mas demasiado redundante. Verdadeira mas demasiado vazia. Vou tentar , mas não prometo que consiga, pôr isso num texto. E como sempre disse, não tem de rimar, e a métrica não será a melhor, mas juro-vos que vem do fundo da alma...
Não sei se alguma vez vou conseguir passar a palavras a sensação de estar perante uma plateia que nos aplaude, satisfeita com um dos nossos textos. A mim o palco faz-me falta, dá-me vida, recarrega a alma, preenche vazios, completa sentidos. Não vos consigo transmitir a emoção que é ter de parar de ler a cada quadra para dar oportunidade aos aplausos se escoarem. Nada se compara com o efeito de ter uma Sr.ª com idade para ser minha avó pedir para me dar um beijo, dizendo que há muito não se divertia tanto. Não consigo ficar indiferente a outra senhora que se aproxima de mim e afirma que no ano anterior parecia mais animado, e que me faltou o saltinho na entrada em palco acompanhado do respectivo “Tcharan”. Ou o outro senhor, armado de um dos nossos livros, que me pedia por favor para o assinar, ao mesmo tempo que me contava a história do filho, tuno por vocação, e relembrava os seus próprios tempos de universitário dizendo sentir saudades do espírito reaccionário que via em nós. Ou aquele que vem perguntar porque não lemos um texto que tinha escutado há dois anos, e começa a recitar o início. Aquela criança que se senta no palco a meu lado e mostra o desenho feito, onde estava o pai, a mãe e os amarelos a actuar. Conseguis entender a ansiedade que se instala em mim quando entro pela 1ª vez da noite em palco? O desejo de transmitir alegria e boa disposição disfarçando de humor críticas severas que outros não têm coragem ou vontade de fazer? Ou então sem crítica mas com muita vontade de pôr um sorriso nas caras escondidas pela luz. A tristeza que se segue a uns minutos menos conseguidos em palco? O orgulho de ser convidado para fazer um espectáculo, onde só estivessem os Jogralhos, sem tunas, sem coros. Só nós. A alegria extrema de sair ovacionado do Coliseu em Lisboa? O medo terrível de não conseguir atingir as expectativas criadas? O orgulho que me encheu o peito quando o meu filho vestiu o meu casaco, o meu lenço e pela 1ª vez subiu a um palco comigo. E as horas que eu passei a limpar a baba quando me pede uns dias depois para lhe comprar um livro de anedotas.
Ah, então fazes isso para satisfazer o ego. Sim. Não.
Sabeis o que é chegar a um sítio pela 1ª vez, longe de vossa casa, e serem recebidos como os filhos perdidos? Entendeis o sentimento de regressar a casa numa terra que nunca visitastes? Como vos sentis quando recebeis aquele abraço forte e emocionado de alguém que vos não vê há 3 anos? E que vos tinha visto pela 1ª vez precisamente nessa altura. Há maneira de não chorar quando vem de cima de um palco uma dedicatória a mim em particular? Concebeis o facto de estar mais em casa em muitas aldeias, cidades e vilas por esse país do que em Braga? Conseguem quantificar o sorriso sincero que aquele tuno vos oferece do outro lado da cantina? Sabeis retomar uma conversa, interrompida no ano anterior precisamente no mesmo ponto em que tinha acabado? Sabem a que sabe uma sopa de feijão às 7 da manhã quando acompanhada de um fado e 4 militares da GNR? Como reagiam a uma escultura feita propositadamente para os Jogralhos, oferecida só porque são o que são? Achais bem receber o prémio de tuna mais tuna se nem pandeireta sabemos tocar? Conseguis perceber porque raios um tuno pede para um grupo de boas vozes se calar só porque vai tocar um fado que a minha voz vai assassinar? Tem lógica ouvir uma cidade a gritar “Medicina Allez…”? É normal serem dedicadas tantas músicas aos Amarelos? Faz sentido voltar ano após ano aos mesmos teatros, convidados pelas mesmas pessoas? Merecemos a constante preocupação que nos é devotada sobre o nosso bem-estar? Como raios se fazem bares em balneários e se criam aí cumplicidades que nunca mais se perdem? Sabeis porque carga de água sabe melhor o moscatel nessa altura?
Deixa ver se te percebo, basicamente és Jogral para satisfazeres o ego e te sentires importante. Certo? Claro. Bem, nem por isso. Não.
Há a última e primeira razão de o ser. Se quiserem a única. Aquela que se sobrepõe a todas e é válida per si.
Vós.
Vós irmãos de amarelo, com quem partilhei e ainda partilho parte da vida.
Todos vós sem excepção, desde a 1ª à última geração. Tu Kim. Tu Norby. Tu Póvoa. Tu Maia. Tu Arnaldo. Tu Louro. Tu Lena. Tu Pastilhas. Tu Kaixas. Tu Luke. Tu Mutley. Tu Nico, Tu Nharro. Tu Titi. Tu 25. Tu IP. Tu Mouro. Tu Spirou. Tu Nem. Tu Viagra. Tu Xis. Nunca vos agradeci por serem o que são, o que foram. Sou JOGRAL porque vos amo. Porque o vazio que deixariam em mim se não existísseis seria demasiado grande para preencher. Vós que sois a minha família depois da família. Que sois irmãos, e como irmãos discutimos, arrufamos, embirramos e lutamos. Saímos de casa para a independência mas voltamos sempre para o Natal. Emigramos mas fica sempre a vontade de regressar em Agosto. E quando o fazemos esquecemos as divergências e relembramos com saudade os tempos que já o não são. Vós que estais sempre aí quando preciso. Que fostes sempre os mesmos comigo, concordando ou não. Que estivestes em alguns dos momentos mais marcantes da minha vida. Que aceitais o que sou, pelo que sou. Que não me julgais. Que criticais sempre que é preciso sem me obrigar a reescrever. Que me pondes na cama quando são horas. Que me dais sem nunca pedir.
Que sabeis jogar futebol circular.Que vos desviais do caminho para me levar a casa. Só vós entendeis o prazer e o orgulho de ser vosso escravo já depois de ser velho. Só vocês entendem um Rodolfo em pleno verão.
Não me preocupa a mediocridade literária deste texto. Nem a lamechice pegada que possa aparentar. Preocupava-me sim o poder morrer amanhã e nunca vos ter dito isto. E dizê-lo alto e em bom som. De forma clara e explícita para que nenhum de vós tenha dúvidas. E aqui, onde todos podem ler porque tenho orgulho de vocês, de nós.
Sou JOGRAL porque vos amo.
por Tilt







